A Fragmentação do Espaço Social: Entre o Solipsismo dos Campos e a Crise da Alteridade.




​Rubem Almeida Mariano — Psicólogo (CRP-8/14994) e Doutor em História pela UEM.

​A célebre máxima de Leonardo Boff, "todo ponto de vista é a vista de um ponto", sintetiza a finitude da perspectiva humana. No entanto, o cenário brasileiro contemporâneo revela uma perigosa miopia que acomete as elites dirigentes dos distintos campos sociais. Vivemos uma modernidade que mimetiza a narrativa da Torre de Babel: uma humanidade que, munida de um aparato tecnológico de comunicação sem precedentes, torna-se incapaz de estabelecer um sentido comum, pois cada liderança encontra-se confinada à insularidade de seu próprio campo, operando sob uma lógica de autoafirmação.

​Este fenômeno manifesta-se nos Poderes da República, na Ciência e na Mídia, esferas que, ao buscarem a autossuficiência e a "glória" institucional, ignoram as teias de interdependência que constituem o espaço social brasileiro.

A Lógica dos Campos de Bourdieu e o Encastelamento

​O sociólogo Pierre Bourdieu descreve a sociedade como um espaço estruturado em diversos "campos" — o político, o científico, o jurídico, o midiático, o religioso, entre outros. Cada campo possui um habitus próprio, regras constitutivas e formas específicas de capital simbólico (os "troféus"). O problema emerge quando esses campos se convertem em mundos fechados.

​O encastelamento corporativo faz com que seus líderes negligenciem a teleologia fundamental de suas funções: a promoção da dignidade humana e a manutenção do bem comum. Quando a finalidade do campo se limita à preservação de seu próprio poder, perde-se a conexão com a realidade social, preparando o terreno para tensões, revoltas e o desgaste da legitimidade institucional.

​O Campo Político: O "Poder pelo Poder"

​A rejeição da indicação de Jorge Messias ao STF, em abril de 2026, ilustra precisamente essa dinâmica de disputa fratricida. Para além do mérito individual, o episódio expôs o embate de forças entre os campos político e jurídico. Enquanto as lideranças disputavam território institucional, a sociedade civil — a quem, em última instância, esses poderes deveriam servir — foi reduzida a mera espectadora.

​A lógica aqui se torna maquiavélica: o exercício do poder torna-se um fim em si mesmo. Quando a política prescinde da ética e da responsabilidade para com o cidadão — aquele que demanda celeridade jurídica e estabilidade social —, ela se torna apenas um ruído ensurdecedor, falhando em sua função democrática e republicana.

​A Ciência e a Injustiça Epistêmica

​O fenômeno da fragmentação estende-se ao campo científico e midiático. O recente debate sobre autismo e neurodivergência no programa Roda Viva exemplifica o que poderíamos chamar de "injustiça epistêmica": a exclusão dos sujeitos de direito (pessoas neurodivergentes e suas famílias) em favor de uma hegemonia de especialistas.

​A ciência não deve funcionar como um exercício de autoridade ou um "show de egos", onde o diagnóstico — especialmente em casos de maior funcionalidade — é submetido a critérios subjetivos e discricionários. Quando o discurso científico ignora a experiência vivida e a singularidade do sujeito, priorizando a performatividade retórica em detrimento da "ética da rua" ou da alteridade, ocorre um distanciamento fatal.

​O campo científico, especialmente no âmbito da saúde, deve servir à dignidade dos sujeitos que desviam dos padrões normativos, e não apenas à manutenção de teses acadêmicas ou ao prestígio de lideranças em bancadas televisivas. A verdadeira ética, como propõe a filosofia, não reside em manuais teóricos, mas na capacidade de enxergar o necessitado e o invisibilizado na sua humanidade plena.

​Conclusão: A Ética da Convergência

​Como bem pontuado, "o problema não é a união da humanidade, mas quais projetos e objetivos dão sustentação a essa organização". Se as estruturas de poder — Executivo, Legislativo, Judiciário, Ciência e Mídia — não convergirem para o bem-estar coletivo, especialmente na escuta ativa dos grupos invisibilizados, estaremos apenas empilhando tijolos em uma torre precária.

​A História é um tribunal implacável que demonstra, repetidamente, que elites encasteladas, ao ignorarem a realidade social sob o pretexto de autossuficiência, condenam a si mesmas à irrelevância e à ruína perante a iminência de rupturas sociais.

Referências

​BÍBLIA. Português. Bíblia sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida. Ed. rev. e atual. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993. Gênesis, 11: 1-9.

​BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. 15. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2011.

​BOURDIEU, Pierre. Questões de sociologia. Petrópolis: Vozes, 2013.

​BRASIL. Agência Brasil. Senado rejeita indicação de Messias para o STF. Brasília, 29 abr. 2026. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br. Acesso em: 1 maio 2026.

​TV CULTURA. Roda Viva: José Salomão Schwartzman debate autismo. São Paulo, 6 abr. 2026. Programa de TV. Disponível em: https://tvcultura.com.br/programas/rodaviva. Acesso em: 1 maio 2026.

Comentários