A Doxa do Silêncio: Disputas e Condutas Políticas na IECLB sob o Governo Médici (1969-1974)

 

Rubem Almeida Mariano
Doutor em História Politica pela UEM

(44) 999521991

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The Doxa of Silence: Political Disputes and Conduct within the IECLB under the Médici Administration (1969-1974)

Die Doxa des Schweigens: Politische Auseinandersetzungen und Verhaltensweisen der IEKLB unter der Regierung Médici (1969–1974)

​Resumo

​O artigo analisa as condutas de posicionamento político da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) durante o período mais repressivo da Ditadura Civil-Militar brasileira. Problematiza-se a classificação de "cautela" atribuída à instituição pelo Relatório Final da Comissão Nacional da Verdade (CNV), confrontando-a com a análise relacional das disputas internas no Campo Religioso Cristão Luterano (CRCL). Através do exame de fontes diretas e indiretas — incluindo atas sinodais, relatórios da repressão (SNI) e documentos da Federação Luterana Mundial — o estudo identifica uma hegemonia de condutas "ortodoxo-socializantes" que resultaram na conivência com violações de direitos humanos no Governo Médici.

Palavras-chave: IECLB; Governo Médici; Direitos Humanos; Campo Religioso; Pierre Bourdieu.

​Abstract

​This article examines the political positioning and conduct of the Evangelical Church of Lutheran Confession in Brazil (IECLB) during the most repressive period of the Brazilian Civil-Military Dictatorship. It problematizes the "cautious" classification attributed to the institution by the Final Report of the National Truth Commission (CNV), contrasting it with a relational analysis of internal disputes within the Lutheran Christian Religious Field (CRCL). Through the examination of direct and indirect sources — including synodal minutes, repression reports (SNI), and documents from the Lutheran World Federation — the study identifies a hegemony of "orthodox-socializing" conducts that resulted in connivance with human rights violations during the Médici administration.

Keywords: IECLB; Médici Government; Human Rights; Religious Field; Pierre Bourdieu.

​Zusammenfassung

​Der Artikel analysiert das politische Positionierungsverhalten der Evangelischen Kirche Lutherischen Bekenntnisses in Brasilien (IEKLB) während der repressivsten Phase der brasilianischen Zivil-Militärdiktatur. Dabei wird die im Abschlussbericht der Nationalen Wahrheitskommission (CNV) vorgenommene Einstufung der Institution als „vorsichtig“ problematisiert und einer relationalen Analyse der internen Auseinandersetzungen im christlich-lutherischen religiösen Feld (CRCL) gegenübergestellt. Durch die Untersuchung direkter und indirekter Quellen – darunter Synodalprotokolle, Berichte des Repressionsapparats (SNI) und Dokumente des Lutherischen Weltbundes – identifiziert die Studie eine Hegemonie „orthodox-sozialisierenden“ Verhaltens, das in einer Duldung von Menschenrechtsverletzungen unter der Regierung Médici mündete.

Schlagwörter: IEKLB; Regierung Médici; Menschenrechte; religiöses Feld; Pierre Bourdieu.

​1. Introdução: O Problema da Cautela e o AI-5

​A historiografia dedicada ao estudo das instituições religiosas durante a Ditadura Civil-Militar brasileira (1964-1985) tem se debruçado sobre a complexa rede de apoio e resistência que caracterizou o período. O Relatório Final da Comissão Nacional da Verdade (CNV) classificou a postura luterana frente ao golpe e à ditadura como "cautelosa" (CNV, 2014, V2, p. 195). Todavia, sob a égide do Ato Institucional nº 5 (AI-5) e o recrudescimento repressivo do Governo Médici, tal "cautela" exige uma revisão crítica.

​Este artigo investiga se essa conduta operou como uma estratégia de manutenção do status quo no Campo Religioso Cristão Luterano (CRCL). A pesquisa demonstra que a conduta institucional tendeu a uma ortodoxia que resultou na omissão deliberada diante da tortura e do arbítrio, fundamentando-se no que definimos como conduta "ortodoxo-socializante".

​2. Referencial Teórico e Fontes: A Análise Relacional

​A pesquisa ancora-se na sociologia do campo de Pierre Bourdieu, tratando a IECLB como um espaço de disputa pelo poder simbólico entre Agentes Religiosos (ARs). A conduta política é analisada como resultado do habitus desses agentes frente às pressões do campo político nacional.

​Metodologicamente, adotamos a proposta de José D'Assunção Barros (2019), operando com um denso corpus de fontes diretas (Atas do VII Concílio Geral, relatórios da Direção Central, registros do SNI e arquivos pessoais de pastores como Werner Fuchs e Carlos Dreher) e fontes indiretas (literatura especializada e historiografia).

​3. Disputas Cristológicas e o Governo Médici

​A conduta da IECLB durante o Governo Médici (1969-1974) foi atravessada por tensões teológicas profundas. O debate sobre a "Cristologia de cima" (focada na pregação da comunidade e no Cristo kerygmático) versus a "Cristologia de baixo" (fundada no Jesus Histórico), conforme exposto por Jean Galot (1973) e Wolfhart Pannenberg, serviu de substrato para os posicionamentos políticos. Enquanto a cúpula institucional utilizava uma teologia existencialista para contestar a "Fé Cristã historicizada", agentes heterodoxos buscavam uma práxis engajada na realidade social brasileira.

​O silêncio da presidência da IECLB — sob a gestão de Karl Adolf Gottschald — diante das graves violações de direitos humanos revela a prevalência de uma conduta de "respeito-conivência". O caso de Frei Tito de Alencar Lima, vítima de torturas atrozes na OBAN, simboliza o nexo de causalidade entre o terror de Estado e o sofrimento psíquico (TEPT - CID F43), ignorado pela doxa luterana da época em prol da coexistência com o regime.

​4. O Ano de 1970: FLM e o Manifesto de Curitiba

​Dois eventos em 1970 consolidam a análise das disputas no CRCL:

  1. O Cancelamento da V Assembleia Geral da Federação Luterana Mundial (FLM): A transferência do evento do Brasil para a França expôs o isolamento da IECLB frente ao luteranismo global, que denunciava as torturas no país. A DCD da IECLB respondeu com um boicote simbólico a Dom Hélder Câmara, alinhando-se ao discurso de "Segurança Nacional".
  2. O Manifesto de Curitiba: Embora celebrado como marco progressista, o documento foi fruto de tensões internas onde a heterodoxia foi contida. A análise das fontes demonstra que o manifesto não alterou o habitus de "confiança-apoio" majoritário da liderança.

​5. Considerações Finais

​A conduta política da IECLB entre 1969 e 1974 não foi meramente cautelosa, mas ativamente forjada em uma ortodoxia que preservou a instituição ao custo do silenciamento profético. A hegemonia dos Agentes Religiosos Ortodoxos neutralizou a resistência, revelando que a "neutralidade" evangélica operou como ferramenta política em favor da ditadura.

​Fontes e Referências Bibliográficas

​Nesta pesquisa, foram utilizadas as seguintes fontes e obras fundamentais (Direct and Indirect Sources):

  1. AGÊNCIA BRASIL. Justiça paulista extingue condenação de Ustra por tortura. São Paulo, 2018. (Fonte Indireta).
  2. ARAGÓN, Luis Eduardo. A Amazônia no Brasil e na Pan-Amazônia. Belém: NAEA, 2018. (Fonte Indireta/Contextual).
  3. ARQUIVO HISTÓRICO DA IECLB. Atas do VII Concílio Geral (CG). Curitiba, 1970. (Fonte Direta).
  4. ARQUIVO NACIONAL. Fundo Memórias Reveladas: Arquivo Confidencial do SNI. (Fonte Direta).
  5. BARROS, José D'Assunção. Fontes Históricas: introdução a sua diversidade operacional. Petrópolis: Vozes, 2019. (Referencial Teórico).
  6. BOURDIEU, Pierre. A Economia das Trocas Simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 2015. (Referencial Teórico).
  7. CÂMARA DOS DEPUTADOS. Registro oficial da sessão 091.2.55.O de 17 de abril de 2016. Brasília, 2016. (Fonte Direta).
  8. CAMPOS, Leonildo Silveira. Religião e Política no Brasil. (Fonte Indireta).
  9. COMISSÃO NACIONAL DA VERDADE (CNV). Relatório Final: Volume 2 – Textos Temáticos. Brasília: CNV, 2014. (Fonte Direta/Referencial).
  10. DREHER, Carlos. Arquivos Pessoais e Trajetória Teológica. (Fonte Direta).
  11. FEDERAÇÃO LUTERANA MUNDIAL (FLM). Relatórios sobre o cancelamento da V Assembleia Geral no Brasil. Genebra/França, 1970. (Fonte Direta).
  12. FICO, Carlos. História do Brasil Contemporâneo. (Referencial Historiográfico).
  13. FUCHS, Werner. Arquivos Pessoais e Correspondências. (Fonte Direta).
  14. GALOT, Jean. Quem é Cristo? Ensaios de Cristologia. São Paulo: Paulinas, 1973. (Referencial Teológico).
  15. GARCIA, Roosevelt. Telecatch: Os Reis do Ringue. Veja SP, 2017. (Fonte Indireta/Cultura de Massa).
  16. IECLB. Manifesto de Curitiba: VII Concílio Geral. Curitiba: DCD, 1970. (Fonte Direta).
  17. MEMÓRIAS DA DITADURA. Biografia de Carlos Alberto Brilhante Ustra. Disponível em: memoriasdaditadura.org.br. (Fonte Indireta).
  18. MUEHLENBECK, Carlos. Protestantismo e Ditadura no Brasil. São Leopoldo: Oikos, 2012. (Referencial Historiográfico).
  19. PANNENBERG, Wolfhart. Grundzüge der Christologie. (Referencial Teórico citado via Galot).
  20. SCHMIDT, Paulo. A IECLB e a Ditadura Militar. Porto Alegre: EST, 2016. (Referencial Historiográfico).

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